Escrito nas estrelas ou o oráculo do contâiner.
Mais um sábado para tirar o lixo aqui de casa. Às vezes precisamos de muitos dias de faxina e, com eles, algumas verificações para não pôr fora a criança, juto com a água do banho, como se dizia. O achado, foi como encontrar a caixa preta de um vôo instável, perdido em meio a tudo aquilo que, temos a impressão de guardar só porquê o descartaremos bem na véspera de precisarmos. Era um velho radiogravador com uma fita K7 dentro. O próprio aparelho daria um causo, mas o conteúdo da antiga mídia era mais inspirador para uma crônica.
Resolvi ouvir aquilo, de curioso, antes de descartar com outro monte de entulhos. Era outro tipo de estorvo. Do tipo que, para livrar-se, depende também do próprio resíduo o qual, as vezes, não colabora muito. Dificultando pela inércia de seu volume ou pelas pontas afiadas de seus cacos. Resiste ou não sabe da redenção pela reciclagem. Foi reveladora a descoberta. Descurtina a técnica de quem interpreta um oráculo como um mapa astral, usando uma mistura de exoteria, psicanálise, empiria e boa dose de suposição. Ou seria a ciência criada por Sigmund baseada na, bem mais antiga, astrologia e outros métodos de ler oráculos? Fazer livres ou orientadas associações de vetores, como simples vísceras de animais dispostas ao suposto acaso, a complexos cálculos matemáticos das configurações de planetas do nosso sistema conhecido? E, de alguém que pode estar entendendo tudo do seu, simbolicamente não menos antigo, jeito de interpretar o que vê ou o que lhe dizem? Quem conhece a história e o ser humano sabe que nenhuma resposta está errada.
Não conheço ninguém que tenha procurado um vidente por estar tão satisfeito com sua vida ou seu momento, que gostaria de saber quando isso acaba. Nunca conheci realmente ou não reconheço mais a pessoa que falava, não só pela má qualidade da gravação mas, principalmente, pela sua escolha em ser uma fiel reprodução dos ruídos que a acompanham, desde a sua origem e das vozes que ecoam na sua cabeça. Nítido mesmo, é que se trata de alguém sentindo-se incapaz ou impotente para decidir, no meio de um impasse, em uma encruzilhada, diante de um ponto de mudança, colocado de fronte a um desafio ou de algo que, tanto pode ser uma oportunidade de sucesso, quanto um desastre eminente. A crença no destino sendo antevisto, se não reconforta, para muitos, consola. Alguém que, não encontrando em si, procura ou delega a outros indivíduos ou elementos a solução. No caso, os corpos celestes, sendo traduzidos por outro ser. Sem julgar quem pratica, consulta, acredita, desacredita, ignora ou tem curiosidade no assunto como eu, o astrólogo, gurú ou conselheiro na gravação, imagino, fazia o relato do que supostamente lia nos cálculos astrológico-zodiacais. O cliente, crente, ouvia, conversava e, de certo modo, munia o seu guia para as próximas interpretações e revelações. Desnudava seus desejos e outras coisas da sua vida e personalidade, sem distinguir realidade de percepção. Aquelas coisas que só se fala, quando se confia muito no seu confidente. Ou se têm eletrodos nas extremidades. Ou, ainda, se nada mais importa naquele momento. Claro como a simplicidade de uma letra de música sertaneja atual, outra pista para quem pretende adivinhar para ajudar o cliente ou, simplesmente, iludir o momentaneamente fragilizado consultante. Mais um dos muitos mistérios e antagonismos do universo. Creio que o guia alí não era do mal e parecia mesmo querer acertar e ajudar a cliente. As vezes, só se consegue isso impressionando-o, com um belo templo ou com algum encantamento menos tangível, como uma adivinhação.
Lá pelas tantas, eu já estava fazendo a parte do misto de adivinho com observador, usando um certo conhecimento adquirido na vida e na informação científica da psicologia da minha profissão. E, porquê não, meus conceitos e preconceitos. Das conversas e interpretações, me chamaram a atenção as repetidas vezes que se falava, naquela sessão, em coisas como”matar o pai”. A mãe metade vítima, metade megera. E a frase de auto-ajuda, “confiar no seu taco”. Daí me ocorre que, como pode dar boi na linha, entender o que quer e fazer o que consegue, a partir de um conselho ou de uma analogia. As vezes, tentando ajudar, a gente superestima a cognição dos outros ou nossa capacidade de expressão. Acabar com a figura paterna é um desejo da criança, que na sociedade não matriarcal é a autoridade pela força, física ou não. Mas também ela pode ser o arrimo da conduta legal, ética e moral do indivíduo e do grupo. Eliminar isso pode, não significar se libertar de apêndices desnecessários, mas também acabar com um importante bom exemplo ou modelo que se têm. Em um mundo comandado por crianças, não duraria muito a brincadeira. Pode ser também, que a vítima e megera sejam, o reflexo da própria pessoa, que viveu sobre essa influência, que tanto pode ser mãe quanto madrasta. Que se confunda a figura paterna com as coisas fortes que os vilões têm. É a megera que põe para baixo as pessoas, minando a auto-confiança, a confiança nos outros e não o poder paterno, o qual dá limites, pois estes são a garantia de uma convivência harmônica ou minimamente civilizada. A vítima tanto pode ser alguém incapaz de não se submeter, tanto quanto alguém que se submete, a qualquer preço, pelo seu conforto ou seu entendimento do que lhe convém. Confiar no taco é bem mais complexo que a simples pseudosegurança da soberba ou o orgulho de fazer tudo da sua maneira. Fazer isso, cegamente, só tem em comum com a boa conduta, o antídoto da compensação para aquilo que só quem tenta pode ter, a chance de errar, na contrapartida de conseguir. A confiança nas suas escolhas faz do dono do taco, da bola ou do campinho, um superfaturador de seus pontos, legislador de suas regras, avaliador dos resultados e dos métodos empregados. Mesmo os irracionais. Autoconfiança sem base, geralmente, leva a ignorar, subestimar e, pior, a tercerizar as razões do seu eventual fracasso ou dos seus relativos enganos. De qualquer maneira, muitos bons exemplos de pais morreriam mesmo, de vergonha, pelo que seus filhos fazem. Sucumbindo as más influências e não entendendo o que as estrelas queriam dizer.
Porém, como o universo está em expansão, só restando a dúvida para a ciência da velocidade disto, tudo pode mudar e, inclusive, o nosso planeta pode nem ser redondo. Boa parte da graça está na falta das certezas, por mais que isso nos atucane, faça a gente procurar respostas, juntar tralhas e troféus nesta nossa jornada ao pó.

O que dizem por aí: